Estudo técnico preliminar: guia para obras públicas

Entenda como estruturar um ETP para obras e serviços de engenharia, desde a identificação da necessidade até a conclusão sobre a viabilidade da contratação.
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O estudo técnico preliminar é o documento que inicia o planejamento de uma contratação pública. Ele identifica o problema que precisa ser resolvido, compara as soluções disponíveis e demonstra se a contratação é técnica e economicamente viável.

Na construção civil, o ETP ajuda a Administração a decidir se a necessidade exige uma reforma, uma ampliação, uma nova edificação, uma intervenção de manutenção ou até uma solução que não envolva obra. Essa análise ocorre antes do detalhamento definitivo do objeto e reduz o risco de contratar uma solução inadequada, superdimensionada ou incompatível com os recursos públicos disponíveis.

A principal ideia deste artigo é simples: um bom ETP não começa descrevendo a obra que o órgão pretende contratar. Ele começa demonstrando o problema público que precisa ser resolvido.

Quando o documento nasce com a solução já escolhida, o levantamento de mercado e a análise de alternativas tendem a servir apenas como justificativas formais. O estudo deixa de orientar a decisão e passa a confirmar uma decisão tomada anteriormente.

A Lei nº 14.133/2021 define o estudo técnico preliminar como o documento da primeira etapa do planejamento que caracteriza o interesse público, identifica a melhor solução e dá base ao anteprojeto, ao termo de referência ou ao projeto básico, caso a contratação seja considerada viável.

O estudo técnico preliminar, também chamado de ETP, é o documento que caracteriza a necessidade da Administração, analisa as alternativas capazes de atendê-la e fundamenta a escolha da solução mais adequada.

Seu objetivo não é detalhar antecipadamente toda a obra. O ETP atua antes do projeto básico e do orçamento definitivo, registrando as premissas necessárias para avaliar a viabilidade técnica, econômica e ambiental da futura contratação.

Na prática, ele conecta a necessidade pública aos documentos que serão produzidos nas etapas seguintes. Se a contratação for considerada viável, a solução escolhida poderá ser detalhada em anteprojeto, termo de referência ou projeto básico, conforme a natureza e o regime da contratação.

A Instrução Normativa SEGES nº 58/2022 regulamenta a elaboração de ETPs para aquisição de bens e contratação de serviços e obras no âmbito da Administração Pública federal direta, autárquica e fundacional, além de disciplinar o Sistema ETP Digital.

Estados e municípios devem observar suas próprias regulamentações e as regras federais aplicáveis a cada contratação.

Fluxo do planejamento de uma contratação pública, da necessidade ao estudo técnico preliminar, projeto, licitação e execução da obra.
O ETP conecta a necessidade da Administração à solução que será detalhada e contratada nas etapas seguintes.

Para que serve o ETP em obras e serviços de engenharia?

O ETP serve para verificar qual solução atende melhor à necessidade pública antes que a Administração avance para o detalhamento e a contratação de uma obra ou serviço de engenharia.

Em uma contratação de obra, a análise não deve considerar apenas o investimento inicial. Prazo, desempenho, vida útil, manutenção, impactos ambientais, condições do local e capacidade de fiscalização também influenciam a decisão.

Considere uma escola pública com infiltrações, instalações elétricas obsoletas e barreiras de acessibilidade. Descrever a necessidade como “contratar a reforma da escola” já antecipa o objeto.

O problema pode ser definido como a necessidade de restabelecer as condições de segurança, acessibilidade, salubridade e funcionamento da unidade escolar. A partir dessa formulação, a equipe pode comparar reparos pontuais, reforma integral, ampliação ou construção de uma nova edificação.

O objeto da contratação deve surgir como resultado dessa análise, não como seu ponto de partida.

Evite começar assim

Contratar empresa para reformar uma escola.

Prefira estruturar assim

Restabelecer as condições de segurança, acessibilidade, salubridade e funcionamento de uma unidade escolar com falhas construtivas e inadequações de uso.

O primeiro enunciado antecipa o objeto. O segundo descreve a necessidade que orientará a comparação das soluções.

Quando o ETP é necessário e quem participa da elaboração?

O estudo técnico preliminar integra a fase preparatória das contratações regidas pela Lei nº 14.133/2021, mas sua exigência deve ser analisada conforme a regulamentação do ente, a natureza do objeto e as hipóteses de exceção aplicáveis.

No âmbito federal, a IN SEGES nº 58/2022 prevê situações em que sua elaboração é facultada e outras em que é dispensada. Portanto, não é correto afirmar que todo processo exige um ETP completo, independentemente do contexto.

Em obras e serviços de engenharia mais complexos, a relevância do estudo aumenta. Quanto maiores forem as decisões técnicas, os impactos, as interfaces e os recursos envolvidos, mais aprofundada deve ser a análise.

A elaboração precisa combinar a visão da área requisitante com o conhecimento da área técnica. Em uma obra, podem participar profissionais de engenharia ou arquitetura, orçamento, planejamento, patrimônio, meio ambiente, licitações e futura fiscalização.

Nem todos necessariamente assinam o documento, mas as informações devem ser produzidas ou validadas por profissionais com competência sobre o tema.

O que deve constar em um estudo técnico preliminar para obras?

Um ETP para obras deve apresentar informações suficientes para caracterizar o problema, comparar alternativas, dimensionar a necessidade e justificar a viabilidade da solução escolhida.

Para facilitar a leitura, os componentes podem ser organizados em quatro grupos. Essa organização não substitui os campos exigidos pela legislação ou pelo sistema do órgão. Ela mostra a lógica que conecta as informações.

Grupo 1 · Problema e contexto

Necessidade da contratação

Caracteriza o problema, os usuários afetados e os resultados necessários.

Alinhamento com o planejamento

Relaciona a demanda ao planejamento institucional e às previsões do órgão.

Requisitos da solução

Define desempenho, segurança, acessibilidade, prazo, durabilidade e manutenção.

Grupo 2 · Alternativas e decisão

Levantamento de mercado

Identifica soluções técnicas e modelos capazes de atender à necessidade.

Comparação das alternativas

Analisa custos, prazos, riscos, limitações e benefícios.

Solução escolhida

Demonstra por que uma alternativa atende melhor ao interesse público.

Grupo 3: dimensionamento e viabilidade

Estimativa dos quantitativos

Apresenta dimensões e volumes preliminares com memória de cálculo.

Estimativa do valor

Registra custos aproximados, premissas, fontes e data-base.

Resultados pretendidos

Define os benefícios esperados com a contratação.

Grupo 4: execução e impactos

Parcelamento da solução

Justifica a contratação conjunta ou a divisão do objeto.

Providências relacionadas

Aponta licenças, projetos, desapropriações e outras condições prévias.

Impactos e viabilidade

Registra impactos ambientais e a conclusão do estudo.

Como elaborar um ETP para contratação de obras?

Para elaborar um ETP para obras, a equipe deve definir o problema, estabelecer requisitos, comparar soluções, estimar quantitativos e custos e justificar a alternativa considerada viável.

O objetivo não é apenas preencher campos. O documento precisa registrar o raciocínio que levou à decisão.

Defina o problema público

A descrição da necessidade deve explicar o que não está funcionando, quem é afetado, quais consequências existem e qual resultado precisa ser alcançado.

Em uma edificação pública, o problema pode estar relacionado à falta de espaço, ausência de acessibilidade, deterioração estrutural, falhas de segurança, inadequação funcional ou custos elevados de manutenção.

Expressões como “necessidade de melhoria”, “prédio antigo” ou “contratação indispensável” são insuficientes. Elas não permitem dimensionar o problema nem verificar posteriormente se a intervenção alcançou seu objetivo.

Laudos, inspeções, fotografias, medições, dados de ocupação, registros de manutenção e relatórios de fiscalização podem servir como evidências.

Estabeleça requisitos e restrições

Os requisitos traduzem a necessidade em condições que a futura solução deverá atender.

Em obras, podem envolver desempenho, segurança, acessibilidade, durabilidade, eficiência energética, capacidade, vida útil, facilidade de manutenção, prazo e compatibilidade com sistemas existentes.

As restrições também precisam ser registradas. Uma reforma em hospital pode exigir a continuidade parcial dos atendimentos. Uma intervenção em patrimônio protegido depende de critérios de preservação. Uma obra em área ocupada pode precisar de execução por etapas e rotas seguras.

Os requisitos não devem ser genéricos demais, mas também não podem direcionar antecipadamente a solução sem justificativa técnica.

Compare as soluções possíveis

O levantamento de mercado identifica e compara alternativas capazes de resolver o problema. Ele não se limita à coleta de preços.

Na reforma de uma escola, podem ser avaliados reparos localizados, reforma integral, ampliação, construção modular ou substituição da edificação. A comparação também pode envolver métodos construtivos, materiais, estratégias de implantação e modelos de manutenção.

O Manual de Licitações e Contratos do TCU orienta que o levantamento identifique as soluções disponíveis que atendam à necessidade e aos requisitos definidos, bem como as condições usuais de execução.

O mais importante é deixar claros os critérios usados na escolha, sem transformar a análise em uma pontuação artificial.

Comparação ilustrativa das alternativas

Critério Reparos pontuais Reforma completa Nova edificação
Atendimento ao problema Parcial Amplo Integral
Prazo Menor Intermediário Maior
Investimento inicial Menor Intermediário Maior
Vida útil Limitada Ampliada Elevada
Interferência no serviço Moderada Elevada Depende do local
Risco de recorrência Alto Médio Menor
Adequação futura Baixa Média Alta

Estime quantitativos, custos e impactos

Os quantitativos do ETP devem ser suficientes para comparar alternativas e produzir uma estimativa preliminar. Eles ainda não precisam ter o mesmo detalhamento de um orçamento baseado em projeto básico ou executivo.

Para uma edificação, podem ser considerados área construída, área de intervenção, número de ambientes, população atendida, extensão das redes e sistemas que serão implantados ou recuperados.

As estimativas devem registrar fonte, memória de cálculo, data-base, premissas e limitações. Não basta apresentar um valor aproximado sem explicar como ele foi obtido.

Podem ser utilizados indicadores paramétricos, custos por área, bases oficiais, contratações semelhantes e levantamentos preliminares.

Segundo o Manual de Licitações e Contratos do TCU, a estimativa nessa etapa serve para comparar as soluções e avaliar a viabilidade da contratação. O valor definitivo será amadurecido com os projetos e demais artefatos.

Também precisam ser analisados impactos como geração de resíduos, consumo de recursos, ruído, interferência no trânsito, drenagem, licenciamento e destinação dos materiais.

Justifique a solução e conclua sobre a viabilidade

A conclusão deve dizer se a contratação é adequada e demonstrar por que a solução escolhida é superior às alternativas consideradas.

Declarações genéricas de que a contratação é “viável e necessária” não são suficientes. A conclusão precisa recuperar os critérios principais, como atendimento à necessidade, custos, prazo, riscos, impactos e disponibilidade de recursos.

Também devem ser registradas as condições para avançar. Sondagens, projetos, licenças, desapropriações, remoções e levantamentos complementares podem ser necessários antes da licitação.

Quando ainda houver incertezas relevantes, o documento deve reconhecê-las e indicar como serão tratadas.

Exemplo de estudo técnico preliminar para reforma de uma escola pública

O exemplo a seguir mostra como o raciocínio de um ETP pode ser aplicado a uma unidade escolar. Ele tem finalidade didática e não substitui os procedimentos adotados pelo órgão responsável.

Problema

Infiltrações, instalações inadequadas, falta de acessibilidade e ambientes incompatíveis com a demanda.

Necessidade

Restabelecer segurança, salubridade, acessibilidade e funcionamento adequado da escola.

Alternativas

Reparos pontuais, reforma completa, ampliação ou construção de uma nova unidade.

Solução escolhida

Reforma completa com adequações de acessibilidade e recuperação das instalações.

Base da estimativa

Área de intervenção, sistemas afetados, bases referenciais e contratações semelhantes.

Viabilidade

Melhor equilíbrio entre custo, prazo e aproveitamento da estrutura existente.

O exemplo resume a lógica do ETP: problema, necessidade, alternativas, estimativa, solução e conclusão.

Qual é a diferença entre ETP, termo de referência, anteprojeto e projeto básico?

O ETP identifica o problema e fundamenta a escolha da solução. Os documentos seguintes detalham o objeto e as condições da contratação.

Documento Finalidade Momento Detalhamento Aplicação em Obras
Estudo técnico preliminar Identificar o problema, comparar soluções e avaliar a viabilidade Início do planejamento Preliminar Fundamenta a escolha da solução
Anteprojeto Definir parâmetros técnicos e de desempenho Após a escolha da solução, quando cabível Intermediário Apoia regimes em que parte dos projetos será desenvolvida pelo contratado
Termo de referência Definir objeto, requisitos, execução e gestão Planejamento definitivo Conforme o objeto Pode ser usado nos casos legalmente adequados
Projeto básico Definir e dimensionar a obra ou serviço Planejamento definitivo Alto Permite caracterizar o objeto, estimar custos e definir métodos e prazos
Projeto executivo Detalhar integralmente a execução Conforme o regime da contratação Muito alto Orienta a execução com especificações e detalhes construtivos

A diferença central é que o ETP responde qual solução deve ser adotada e por quê. O projeto básico e os demais artefatos explicam o que será contratado, como será executado e sob quais condições.

Quais erros comprometem um estudo técnico preliminar?

Os erros mais graves são aqueles que transformam o ETP em uma formalidade sem capacidade de orientar a decisão.

O primeiro é começar pela solução. Quando a obra já está definida desde o início, a comparação das alternativas perde credibilidade.

Copiar um modelo sem adaptar o conteúdo também compromete o estudo. Justificativas genéricas e conclusões padronizadas indicam que o documento não foi elaborado para aquela necessidade.

Outro problema é confundir levantamento de mercado com três cotações. A pesquisa de preços ajuda a estimar valores, mas não substitui a análise de soluções, métodos e modelos de atendimento.

Quantitativos sem memória de cálculo e valores sem fonte ou data-base impedem a rastreabilidade. Mesmo em uma fase preliminar, é preciso explicar a origem das estimativas.

A análise também fica incompleta quando ignora operação, manutenção e vida útil. Uma alternativa mais barata no início pode gerar despesas maiores ao longo do tempo.

Por fim, a conclusão deve decorrer das evidências apresentadas, e não de uma frase automática sobre a viabilidade.

Checklist de revisão

Verificação Pergunta de controle
Necessidade O problema está descrito sem antecipar a solução?
Requisitos As condições são necessárias e justificadas?
Mercado Foram comparadas alternativas realmente diferentes?
Quantidades Existem memória de cálculo e documentos de suporte?
Custos A estimativa tem fonte, data-base e premissas?
Parcelamento A decisão considera interfaces e economia de escala?
Impactos Foram avaliados ciclo de vida, resíduos e licenças?
Conclusão A viabilidade decorre das análises apresentadas?

O checklist tem função de conferência. Diferentemente do estudo de caso, ele permite revisar rapidamente a consistência do documento antes da aprovação.

Como a OrçaFascio pode apoiar o planejamento da contratação?

A OrçaFascio pode apoiar as etapas que dependem de estimativas, bases de custos, quantitativos e rastreabilidade das premissas utilizadas no planejamento da obra.

Mesmo quando os valores ainda são preliminares, organizar as referências ajuda a comparar soluções e demonstrar como as estimativas foram construídas.

O módulo de Orçamento de Obras permite estruturar composições, insumos, quantitativos e relatórios. As Bases Adicionais apoiam o uso de referências de custos, enquanto a Gestão de Bases Próprias permite organizar informações específicas da instituição ou de contratações anteriores.

Nas etapas seguintes, quando o projeto e o orçamento de referência forem detalhados, a plataforma ajuda a preservar a conexão entre premissas, quantitativos, composições e valor estimado.

Conclusão

O estudo técnico preliminar não serve para justificar uma obra já decidida. Ele demonstra qual solução atende melhor à necessidade pública e em quais condições a contratação deve avançar.

Em obras e serviços de engenharia, essa análise integra demanda, conhecimento técnico, estimativas, planejamento e impactos. O documento deve ser proporcional à complexidade do problema, sem se limitar ao preenchimento de campos.

Um ETP consistente mostra qual problema existe, quais alternativas foram consideradas, como os valores foram estimados e por que determinada solução foi escolhida.

Com essa base, o anteprojeto, o termo de referência, o projeto básico e o orçamento de referência podem ser elaborados com mais segurança e coerência.

Perguntas Frequentes

O estudo técnico preliminar é obrigatório em todas as contratações?
Não necessariamente. O ETP integra a fase preparatória prevista pela Lei nº 14.133/2021, mas sua elaboração pode ser facultada ou dispensada nas hipóteses previstas pela regulamentação aplicável.
Quem deve elaborar o ETP de uma obra?
A elaboração deve reunir a área requisitante e a área técnica ou a equipe de planejamento. Em obras, é importante envolver conhecimentos de engenharia ou arquitetura, orçamento, planejamento, licitações e gestão contratual.
O ETP precisa conter orçamento detalhado?
Não necessariamente. O ETP deve apresentar estimativas suficientes para comparar soluções e avaliar a viabilidade. O orçamento detalhado é amadurecido posteriormente, com o desenvolvimento dos projetos.
Qual é a diferença entre ETP e projeto básico?
O ETP identifica o problema, compara alternativas e justifica a solução. O projeto básico define e dimensiona a obra com precisão suficiente para caracterizar o objeto, estimar custos e estabelecer métodos e prazos.
Levantamento de mercado é o mesmo que pesquisa de preços?
Não. O levantamento de mercado compara soluções capazes de atender à necessidade. A pesquisa de preços busca referências para estimar o valor da solução ou do objeto.

Sobre a OrçaFascio

A OrçaFascio é uma plataforma especializada em tecnologia para orçamento, planejamento e gestão de obras na construção civil.
Com recursos que integram bases de preços públicas, análise de custos e organização técnica de projetos, a solução ajuda empresas de engenharia e construtoras a tomarem decisões com mais segurança.
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