
Na prática da engenharia, poucas coisas geram tantos problemas quanto trabalhar com informações que não representam a realidade. Projetos que não refletem o que foi executado, quantitativos que não batem com o campo e documentos desatualizados acabam comprometendo desde a manutenção predial até a elaboração de novos orçamentos.
É nesse contexto que o As Built se torna um documento central. Mais do que um desenho final, ele representa o registro técnico fiel da edificação construída, reunindo todas as alterações, ajustes e decisões tomadas durante a execução da obra.
Quando bem elaborado, o As Built deixa de ser apenas uma exigência contratual ou normativa e passa a funcionar como uma ferramenta de gestão de custos, transparência e inteligência técnica, especialmente relevante para engenheiros de custos, orçamentistas, gestores de obras e empresas de engenharia.
O que é As Built e por que ele é o “RG” da edificação
O termo As Built pode ser traduzido como “como construído” e se refere ao conjunto de documentos que retratam a edificação exatamente da forma como ela foi executada. Isso inclui todas as modificações feitas em relação ao projeto original, sejam elas decorrentes de ajustes técnicos, incompatibilizações resolvidas em obra, mudanças de materiais ou decisões operacionais.
Diferentemente do projeto executivo, que parte de premissas e soluções planejadas, o As Built é construído a partir da realidade. Ele incorpora dimensões finais, posições reais de sistemas, interferências existentes e soluções que, muitas vezes, só surgem durante a execução.
A comparação com um “RG da edificação” não é exagerada. Assim como um documento de identidade descreve quem a pessoa realmente é, o As Built descreve o que a edificação efetivamente se tornou. Sem ele, qualquer intervenção futura passa a depender de suposições, o que aumenta riscos técnicos, custos e retrabalhos.
Projeto “como construído” e a diferença em relação ao projeto executivo
Embora muitas vezes confundidos, projeto executivo e projeto “como construído” cumprem funções completamente diferentes dentro do ciclo da obra.
O projeto executivo orienta a execução, servindo como base para planejamento, orçamento e contratação. Já o As Built consolida o que foi feito, funcionando como documento definitivo da edificação.
Essa distinção é especialmente importante para engenheiros de custos. Orçar uma reforma, ampliação ou manutenção com base em um projeto executivo antigo pode gerar erros significativos de quantitativos, já que a obra raramente é executada exatamente como planejada.
De forma resumida, o projeto executivo aponta o caminho. O As Built registra o destino.
A importância da NBR 14645
A NBR 14645 estabelece diretrizes para a elaboração de projetos “como construído”, trazendo critérios técnicos que reforçam a confiabilidade e a padronização desses documentos. A norma define responsabilidades, conteúdo mínimo, forma de representação e requisitos de atualização, deixando claro que o As Built não deve ser tratado como um simples ajuste gráfico ao final da obra.
Ao seguir a NBR 14645, o As Built passa a ter caráter técnico e institucional, servindo como base confiável para gestão, manutenção, auditorias e futuras intervenções.
Além disso, a norma contribui para reduzir ambiguidades contratuais, uma vez que deixa claro o papel do As Built como documento oficial da edificação entregue.
Atualizações normativas e o Catálogo ABNT a partir de 2022
A partir de 2022, o Catálogo ABNT passou a incorporar normas que ampliam a discussão sobre documentação técnica, coordenação e confiabilidade da informação na engenharia. Normas como a NBR 17047 e a NBR 17058 reforçam a importância da gestão integrada de projetos e da rastreabilidade das decisões técnicas.
Nesse cenário, o As Built deixa de ser visto como uma entrega isolada e passa a integrar um sistema maior de gestão da informação da edificação. Ele se conecta à compatibilização de projetos, à governança técnica e à transparência ao longo de todo o ciclo de vida do ativo.
Para empresas de engenharia e construtoras, essa evolução normativa reforça a necessidade de tratar o As Built como parte da estratégia técnica e não apenas como uma formalidade de encerramento de obra.

Levantamento planialtimétrico como base do As Built
O levantamento planialtimétrico desempenha papel fundamental na elaboração de um As Built confiável, especialmente em obras que envolvem alterações significativas de terreno, infraestrutura ou edificações existentes.
Ao registrar com precisão cotas, níveis e geometrias, o levantamento planialtimétrico garante que o As Built represente fielmente volumes executados, movimentações de terra e interferências com o entorno. Sem esse levantamento, o documento corre o risco de se tornar apenas uma representação aproximada, sem valor técnico para medições e análises futuras.
Em obras de retrofit, regularização ou ampliação, o levantamento planialtimétrico muitas vezes é o ponto de partida para reconstruir a base técnica da edificação.
Compatibilização de projetos registrada no As Built
Durante a execução da obra, é comum que conflitos entre disciplinas sejam resolvidos diretamente no campo. Tubulações desviadas, ajustes em passagens elétricas, adequações estruturais pontuais e mudanças de equipamentos fazem parte da rotina.
O As Built é o documento responsável por consolidar essas decisões, garantindo que a compatibilização final esteja registrada de forma clara. Quando isso não acontece, os problemas surgem na etapa seguinte, seja em uma manutenção simples ou em uma reforma de maior porte.
Ao registrar a compatibilização efetiva, o As Built reduz riscos de interferências futuras, diminui retrabalhos e aumenta a previsibilidade técnica das intervenções.
As Built e orçamentação: onde os custos se revelam
Um dos maiores potenciais estratégicos do As Built está na sua relação direta com a orçamentação. Ao comparar quantitativos previstos no projeto executivo com os quantitativos reais registrados no As Built, torna-se possível identificar desvios, padrões de erro e impactos financeiros das decisões tomadas em obra.
Para engenheiros de custos e orçamentistas, esse confronto entre previsto e executado é uma fonte valiosa de aprendizado. Ele permite recalibrar composições de custos, ajustar coeficientes de produtividade e aumentar a assertividade de orçamentos futuros.
Nesse sentido, o As Built deixa de ser um documento passivo e passa a funcionar como uma ferramenta de inteligência orçamentária, capaz de transformar dados da obra em conhecimento aplicado.
Transparência e gestão de custos
Além de apoiar a orçamentação, o As Built contribui diretamente para a transparência da gestão de custos. Quando as alterações executadas estão documentadas, as decisões se tornam rastreáveis e justificáveis, reduzindo conflitos entre contratantes, contratados e órgãos de controle.
Em contratos públicos ou empreendimentos complexos, essa transparência é um diferencial relevante, pois fortalece a governança e reduz riscos jurídicos.
Tecnologias que aceleram e qualificam o As Built
O avanço tecnológico transformou a forma como o As Built pode ser elaborado. O uso de BIM permite que o modelo seja atualizado ao longo da obra, integrando disciplinas e gerando quantitativos diretamente a partir da geometria executada.
Já o Laser Scanning possibilita a captura precisa da realidade construída, por meio de nuvens de pontos que reduzem erros de levantamento e aumentam a confiabilidade do registro final. Essas tecnologias são especialmente valiosas em obras complexas, retrofits e edificações sem documentação confiável.
Quando integradas a sistemas de orçamento e gestão, essas soluções fecham o ciclo entre planejar, executar, registrar e aprender com os dados da obra.

Manutenção predial e As Built
Na fase de operação, o As Built se torna a principal referência técnica da edificação. Ele orienta manutenções corretivas e preventivas, facilita a localização de sistemas e reduz a necessidade de intervenções exploratórias, que aumentam custos e riscos.
Edificações que contam com As Built atualizado tendem a apresentar menor custo operacional ao longo do tempo, maior vida útil dos sistemas e maior segurança técnica nas intervenções.
Conclusão
O As Built não deve ser tratado como um simples desenho final ou uma obrigação contratual. Ele é um ativo estratégico, com impacto direto em custos, orçamentos, manutenção, transparência e tomada de decisão.
Para engenheiros de custos, orçamentistas, gestores de obras e empresas de engenharia, investir em um As Built bem estruturado significa aprender com a obra executada e transformar essa experiência em vantagem competitiva.
Em um setor onde erros se repetem por falta de informação confiável, o As Built representa a base para decisões melhores, mais seguras e economicamente mais eficientes.
Perguntas Frequentes
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